AS PALAVRAS
AS PALAVRAS
As palavras são boas. As palavras são más. As
palavras ofendem. As palavras pedem desculpas.
As palavras queimam. As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas, oferecidas,
vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam...
As palavras aconselham, sugerem, insinuam,
ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas
ou azedas.
O mundo gira sobre palavras lubrificadas
com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios
de palavras que vivem em boa paz com as suas
contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o
contrário do que pensam, julgando pensar o
que fazem. Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas
umas às outras, em equilíbrio instável graças
a uma precária sintaxe, até ao prego final do
Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora,
se inaugura, se abrem e fecham sessões, se
lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas
de veludo. São brindes, orações, palestras e
conferências. Pelos discursos se transmitem
louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E
depois as palavras dos discursos aparecem deitadas
em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por
essa via entram na imortalidade do Verbo.
(José Saramago)